sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Festa de Oxum 2010 - PARTE II

 

Sensibilidade e respeito para com seu orixá.
 Mais imagens da construção dos espaços sagrados, ao longo da praia, para a realização dos rituais de Oxum. As mais diversas Casas de religião (Umbanda, Batuque, Quimbanda...) levam todo o material necessário para as cerimônias de celebração, cada uma com suas peculiaridades junto das semelhanças, transformando a longa faixa de areia num imenso e único espaço religioso. São crianças, homens e mulheres, negros e brancos, que mantêm a crença viva e colaboram para que, a cada ano, a festa seja mantida. Vestidos ou não com a roupa de ritual, cantam e dançam nesses "santuários" para a chegada de Oxum em seus "terreiros-areia". Ou simplesmente realizam uma "oração" à beira d'água e oferecem flores amarelas. 
A criancinha já pronta para
o ritual de sua Casa.
 

Antes do ritual, as crianças brincam,
mesmo já caracteristicamente vestidas.


A caminho do preparo...

 Apesar de ter uma "espinha dorsal" que une todas as manifestações de uma determinada religião, há as negociações dentro de cada espaço que permitem que tal religião adote a "cara" de seu grupo religioso, como bem disse Durkheim. Dentre essas "brechas", cada Casa realiza o seu ritual para Oxum com alguns detalhes específicos, instalando seus santos (católicos ou não) nos congás de areia, como São Jorge,  Divino Espírito Santo, Iemanjá...  






A construção detalhada do congá com imagens
de Iemanjá, Santo Expedito,
Divino Espírito Santo e
Nossa Senhora da Conceição Aparecida
(sincretizada com Oxum)...




A pequena Iansã brinca...




Os espaços são caracteristicamente demarcados,
indicando que ali será uma casa de religião,
mesmo que temporária.


E brinca...


Festa de Oxum 2010 - PARTE I


Magnífica tarde de Oxum.
Um cenário também preparado?


Na Festa de Oxum, neste 08 de dezembro, percebe-se o quanto Porto Alegre possui sangue afrodescendente. Banhada por água doce, a Capital gaúcha não teria outro protetor que não este orixá do ouro, da beleza, da vaidade e da sedução, o que comprova o grande pé na África que a cidade possui. Negros e brancos se reuníram na praia de Ipanema (Zona Sul) para celebrar o dia da Mãe dourada, sincretizada com Nossa Senhora da Conceição. As festanças foram até por volta de 1 hora da manhã, culminando com a queima de fogos de artifício e o grande "tapete" de oferenda sendo deslizado até as águas do Guaíba.
 

As calmas águas de Oxum começam a receber
as primeiras oferendas.



Um singelo buraquinho de velas
em agradecimento...
 

A meditação diante do orixá
antes e após a oferenda.


Flores, muitas flores amarelas
agradando a Mãe do ouro, da vaidade,
da jovialidade.


O amarelo do final de tarde ajuda a compor a
beleza da Festa.


Não deixa de ser uma dádiva divina...


Caprichosas mãos negras preparam
 o presente em formato de coração: mel, canjica,
quindins, balas, lequezinhos...


Apesar da delicadeza do presente,
a poluição da praia...




Crisântemos à beira d'água.

No preparo do pequeno santuário,
a devota cava a areia para pôr as velas.

Em meio ao desrespeito à natureza,
a  pureza que insiste ...

De braços abertos diante da Mãe...

Os arranjos merecem cuidados,
pois Oxum é vaidosa
e merece o amarelo até nas unhas.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Como tudo começou...

"No começo não havia separação entre
o Orum, o Céu dos orixás,
e o Aiê, a Terra dos humanos.
Homens e divindades iam e vinham,
coabitando e dividindo vidas e aventuras.
Conta-se que, quando o Orum fazia limite com o Aiê,
um ser humano tocou o Orum com as mãos sujas.
O céu imaculado do Orixá fora conspurcado.
O branco imaculado de Obatalá se perdera.
Oxalá foi reclamar a Olorum.
Olorum, Senhor do Céu, Deus Supremo,
irado com a sujeira, o desperdício e a displicência dos mortais,
soprou enfurecido seu sopro divino
e separou para sempre o Céu da Terra.
Assim, o Orum separou-se do mundo dos homens
e nenhum homem poderia ir ao Orum e retornar de lá com vida.
E os orixás também não podiam vir à Terra com seus corpos.
Agora havia o mundo dos homens e o dos orixás, separados.
Isoladas dos humanos habitantes do Aiê, as divindades entristeceram.
Os orixás tinham saudades de suas peripécias entre os humanos
e andavam tristes e amuados.
Foram queixar-se com Olodumare, que acabou consentindo
que os orixás pudessem vez por outra retornar à Terra.
Para isso, entretanto, teriam que tomar o corpo material de seus devotos.
Foi a condição imposta por Olodumare
 
Oxum, que antes gostava de vir à Terra brincar com as mulheres,
dividindo com elas sua formosura e vaidade,
ensinando-lhes feitiços de adorável sedução e irresistível encanto,
recebeu de Olorum um novo encargo:
preparar os mortais para receberem em seus corpos os orixás.
Oxum fez oferendas a Exu para propiciar sua delicada missão.
De seu sucesso dependia a alegria dos seus irmãos e amigos orixás.
Veio ao Aiê e juntou as mulheres à sua volta,
banhou seus corpos com ervas preciosas,
cortou seus cabelos, raspou suas cabeças,
pintou seus corpos.
Pintou suas cabeças com pintinhas brancas,
como as pintas das penas da conquém,
como as penas da galinha-d’angola.
Vestiu-as com belíssimos panos e fartos laços,
enfeitou-as com jóias e coroas.
O ori, a cabeça, ela adornou ainda com a pena ecodidé,
pluma vermelha, rara e misteriosa do papagaio-da-costa.
Nas mãos as fez levar abebés, espadas, cetros,
e nos pulsos, dúzias de dourados indés.
O colo cobriu com voltas e voltas de coloridas contas
e múltiplas fieiras de búzios, cerâmicas e corais.
Na cabeça pôs um cone feito de manteiga de ori,
finas ervas e obi mascado,
com todo condimento de que gostam os orixás.
Esse oxo atrairia o orixá ao ori da iniciada e
o orixá não tinha como se enganar em seu retorno ao Aiê.
Finalmente as pequenas esposas estavam feitas,
estavam prontas, e estavam odara.
As iaôs eram a noivas mais bonitas
que a vaidade de Oxum conseguia imaginar.
Estavam prontas para os deuses.
 
Os orixás agora tinham seus cavalos,
podiam retornar com segurança ao Aiê,
podiam cavalgar o corpo das devotas.
Os humanos faziam oferendas aos orixás,
convidando-os à Terra, aos corpos das iaôs.
Então os orixás vinham e tomavam seus cavalos.
E, enquanto os homens tocavam seus tambores,
vibrando os batás e agogôs, soando os xequerês e adjás,
enquanto os homens cantavam e davam vivas e aplaudiam,
convidando todos os humanos iniciados para a roda do xirê,
os orixás dançavam e dançavam e dançavam.
Os orixás podiam de novo conviver com os mortais.
Os orixás estavam felizes.
Na roda das feitas, no corpo das iaôs,
eles dançavam e dançavam e dançavam.
Estava inventado o candomblé."
 (Reginaldo Prandi, Mitologia dos orixás, págs. 524-528)